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sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Ligação

Eu não pude atender sua ligação. Não estava ocupado, mas não estava preparado. Na verdade nos segundos em que tive que decidir se atendia ou não eu tive a certeza de que você não estava preparado para me ouvir. Quero tanto receber suas ligações que me contendo com seu nome piscando na tela do telefone. Falar contigo poderia estragar a delícia de sentir que você teve vontade de falar comigo. Você não deve estar preparado, deve seguir sua vida, escovar seus dentes e ouvir suas músicas como faz desde sempre. Você não deve estar preparado para seguir minhas músicas e escovar meus dentes. Não aceito nada de nós que seja raso. Nem sei como o faria contigo. Nem sei como reagiria ao ouvir sua voz do outro lado da linha. Começo a esquecer a sua voz e isso me faz bem. Acho que nunca tive registro da sua voz ou do seu rosto, só referências e encanto.

Como atender então a chamada de um desconhecido? Iria finalmente tirar as máscaras por telefone e revelar essas tuas fraquezas que tanto gosto? Creio que não. Em nossos melhores momentos estamos calados, com a cumplicidade de quem sente que o que é bom é simples. Te vi simples e te fiz simples. Simplifiquei teus problemas, pois sei que ao meu lado eles não seriam nada, resolveria todos pra te ver sorrindo novamente. Que olhar cansado carrega. Que peso é este sobre os olhos de poeta abandonado, de homem sem amor. Ama-me e prova que tudo isso que escrevi não faz sentido, que somos melhores juntos e só assim é possível ser. Liga-me só mais uma vez e prometo perder o medo e a razão.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Motivo

Encontrei o tal bom motivo pra te ligar. Quando ouvi as histórias da terra que gosta de dizer sua, pensei que seu ego quixotesco de cavaleiro herói seria acariciado com a lembrança. Te conheço tanto que sei que nada importaria dividir contigo qualquer aflição que não fosse a sua. Pois infla-te mais uma vez com a certeza que quase te procurei. É o máximo que darei a ti, a certeza que carrega de que vejo poesia em tua vida. Vejo mais que tu mesmo, crio nos teus dias histórias maravilhosas para ti, e segues apenas pensando em ti mesmo – o que fazes tão bem. Te alimento com meus sonhos e as batalhas das tuas horas são vencidas apenas pelo meu desejo de manter-te tão longe.

Fica no castelo, no alto do morro observando um mundo que não é seu e deixa que eu traduza em versos as emoções de pessoas que nunca conhecerá. O vento que bate em teus cabelos chega frio aos olhos dos outros. Frio é teu olhar para a gente que nunca pensou existir. Quis ligar-te e resisti com a garra de herói e o medo de menino. Que faria eu se não te encontrasse em batalhas distantes contra teus próprios medos? Meu prazer é te imaginar e qualquer toque traria novamente a realidade sublimada em sonho. Mantém-te sonho que te garanto as doses de poesia. Não faltarão cartas para contar a nossa história e enquanto as escrevo escondo e escolho o final feliz.