quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Descobrem-se os dias com as mais grossas cobertas. Escondidas as marcas que tenho e nem mesmo sei. Criando texturas em teclas tão frias. Impressões ainda sem cara e memórias de tempos que desde o início eu sozinho crei. Desenho meus dias com o corpo bobo, cansado, triste, desengonçado. Sem jeito, errado. Um ridículo sorridente, perdido no tempo: o apaixonado. E segue, longe e feliz a história inventada que um dia eu amei. "Nem fome, nem falta de comida. Nem a aids, o câncer, o sagitário e muito menos o escorpião. Não é a economia nem a política externa. A questão é interna, intensa e intrusa. Internacional e principalmente individual. Pra o que se sente não tem remédio, não tem colégio nem explicação. Pra dor da gente, que só a gente sente, ninguém no mundo tem solução." Tua respiração sempre atrapalhou a minha insônia. O irritante barulho frequente se tornou um hábito. O teu hálito ao acordar me falando de amor com o travesseiro ainda suado, babado, amarrotado. Tua cabeça pesava no meu peito e não me deixava dormir. Mas as frases sem sentido que falava enquanto dormia me deixavam sonhar. Teu pé frio no meio da noite só irritava por mostrar que era você que estava do meu lado. Quando acordar, saia bem devagar. Saia, mas pra sempre voltar. No fim da noite, não sei se por efeito do momento, da bebida ou de algum sentimento. Talvez até pela mistura dessas três dúvidas, segurou a minha mão. Apertou forte com orgulho de deixar ali as suas digitais, de mostrar que marcou. Quando soltou, vi que as marcas resistiam. E o que antes era a minha identidade agora é seu. São as suas digitais nos meus dedos que me condenam a viver nesta prisão. Não pensava na hora da alegria. Não considerava alegria uma verdade pensada. Fugia da derrota anunciada. Como convém ao bom vilão e ao mau super-herói. Mas não vencia a própria razão. E quando isso acontece, dói. Colando avisos, faixas, bandeiras. Pedindo ajuda pra quem no mundo ousasse entender. Que a pior missão, a mais difícil, é ter que lembrar que tem que esquecer.