terça-feira, 22 de março de 2016

De manhã, aquele medo que me achasse feio. Saí da cama tenso, fugindo como se tivesse cometido um crime, como se não devesse estar ali. Camas que não são barulhentas são cúmplices perfeitas para a insegurança matinal de quem não tem estrutura como as delas. Foge-se dos espelhos da casa, mas nunca do elevador que sempre estará lotado quando o desejo é de não existir. A noite tem acordos implícitos: você me engana fazendo sentir o que não sou e eu não quebro a tua ilusão. Ilusão é a escolha certa na hora errada. De manhã, aquele medo que me achasse. Ontem me vi no teu reflexo e mesmo com a fumaça do cigarro do bar ou a luz fraca de um ambiente que não será importante para nós, percebi que havia admiração. Ontem, enquanto me olhava te senti antes mesmo de me tocar e este é o melhor contato que qualquer sentido humano pode receber. Recebi os teus elogios entre gargalhadas sedutoras e a mentira de que não comparava o meu corpo com os outros tantos que já teve. O meu pesadelo é que o Sol acorde o teu olhar de piedade. De manhã não há espaço para o teu mau hálito que carrego no corpo. Não me fale isso, não me olhe assim. Não de manhã.

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