terça-feira, 22 de março de 2016
Gorjeta (Rodrigoh Bueno, 2014)
Era sempre o mais visto do bar. Chegava inteiro, ocupando o espaço das mesas, dos olhares e das conversas com as suas histórias que ninguém ousava duvidar. Sabia ser ainda maior mesmo já sendo grande. Ao fim da noite, entre gargalhadas fáceis, escolhia entre os coadjuvantes do cenário que criou, um para ser seu. E um dia, fui eu.
Fui eu que pedi mais uma para o garçom, fui eu que dancei a música que ele escolhia, fui eu que ri do seu sorriso e orgulho. E os seus gestos coreografados só confirmavam que não era um encontro, era um espetáculo. Como ao fim da cena as cortinas se fecham, ao fim da cama os olhos se fecharam. Não cabia mais que um copo na sua boca. Minha presença sobrava. Em outros bares teve os melhores. Tantos braços, tanto beijos. Como numa loja em que se prova tudo, decidiu que ninguém havia de servir.
De mesa em mesa. De cama em cama. Viu seu espaço se tornar o mesmo. E que graça há em repetir a história pra quem já sabe que será o fim? Escolhi o meu fim. Os copos foram se quebrando, mesas esvaziando e ninguém mais refletia o seu olhar. Usou de todos, tantos, que não tinha mais a quem buscar. Enquanto eu de cá sentia - por mim e por ele. Tive tanto sentimento que errava as minhas horas para que um dia pudessem ser as dele. Um dia seus olhos me pediam os outros. Que eu, aflito, procurei. Vi com ele gente tão vazia que preenchia de músculos a pequenez da alma. Nos dias criados com ele eu sorria, nas tantas noites chorando ao quarto, formava a ilha em que só ele sabia chegar.
Não se ouvem mais os passos no bar. A cama é fria como a lembrança de quem por lá passou. Não caminha mais, mas eu conduzo. Reservo o teu lugar pra ver de novo a tua entrada pela porta. Contei tanto as cervejas que bebia que não tive tempo de pedir a minha. Cadê o espaço que nos ocupava? Cadê voz forte de guerreiro? Ao me ver repete a história. Levanta o canto esquerdo da boca como faz quando sente orgulho. Teve o mundo, mas dele não fez parte. Tem a mim.
Era um domingo de manhã. Na verdade não sei se era exatamente um domingo, mas era um desses dias em que se acorda tarde, pega algo na cozinha e se volta para a cama meio que dormindo com a cara entre migalhas de pão no travesseiro. Um domingo bom tem como som do despertador a água fervente passando pelo coador do café. Naquela preguiça de quem nem sabe o que é, e se estende o braço ao lado e percebe o calor do corpo quente. Nesse instante não importa como foi a noite. Em manhã boa não se tem lembrança, tem um braço perdido na cama que mesmo sendo de outro é um pedaço seu. Enquanto o queijo esquenta no chapa de um sanduíche mal feito, amantes se derretem confundindo pernas e combinando planos falhados para um dia que atrasou em começar.
Pego tua xícara de café já meio frio, doce. Não gosto. Sorrio. Reclamo e bebo mais. Acertou que no meu são só duas gotas de adoçante, mas errou ao achar eu saberia de olhos fechados identificar o que era meu e o que era seu. Isso eu nunca soube ao certo, mesmo quando acordado. Roupa espalhada pelo quarto todo e a dúvida de onde foi parar aquele par da meia. Logo eu que nunca me preocupei em guardar as meias juntas procuro por toda a cama a lembrança da minha parte perdida entre você . Eu não quero achar. Em um domingo de manhã, ou nesses dias em que juntos representamos a preguiça toda, não me importo com a segunda – feira ou impressão. Teu peito é o meu lugar e nem precisa me desejar bons sonhos. Sonho com o dia em que as nossas manhãs dormindo sejam para sempre os nossos domingos.
De manhã, aquele medo que me achasse feio. Saí da cama tenso, fugindo como se tivesse cometido um crime, como se não devesse estar ali. Camas que não são barulhentas são cúmplices perfeitas para a insegurança matinal de quem não tem estrutura como as delas. Foge-se dos espelhos da casa, mas nunca do elevador que sempre estará lotado quando o desejo é de não existir. A noite tem acordos implícitos: você me engana fazendo sentir o que não sou e eu não quebro a tua ilusão. Ilusão é a escolha certa na hora errada.
De manhã, aquele medo que me achasse. Ontem me vi no teu reflexo e mesmo com a fumaça do cigarro do bar ou a luz fraca de um ambiente que não será importante para nós, percebi que havia admiração. Ontem, enquanto me olhava te senti antes mesmo de me tocar e este é o melhor contato que qualquer sentido humano pode receber. Recebi os teus elogios entre gargalhadas sedutoras e a mentira de que não comparava o meu corpo com os outros tantos que já teve.
O meu pesadelo é que o Sol acorde o teu olhar de piedade. De manhã não há espaço para o teu mau hálito que carrego no corpo. Não me fale isso, não me olhe assim. Não de manhã.
“Eu te amo”, disse. E o momento não podia ser pior.
Era a mesma mesa da cerveja de ontem. Não foram diferentes os beijos de hoje, não tocou a música que não temos e nem nos olhamos com luz além dos olhos, brilhos, essas coisas que dizem que acontece quando surge um novo amor. Sussurrou ao meu ouvido “eu te amo” quando eu já pegava o maço de cigarro pra te oferecer mais um, pois o seu sempre acabava antes do meu. Eu, acabado, arrotava cervejas e verdades sobre política, cultura e música e sabia que você já não estava ouvindo nada, só esperando a tua vez de falar as tuas vaidades disfarçadas de verdades.
Respeitei o teu momento desde que te conheci. Desde que achei que já te conhecia, e por isso a surpresa da revelação. Me jogou na responsabilidade de uma resposta ou atitude sobre esse sentimento agora dito, uma surpresa que me fez desconfiar do quanto eu te percebi de verdade todo este tempo. Amor falado, assumido ao pé do ouvido desce pelo corpo tipo chá quente, tipo sopa no inverno ocupando todo o espaço interno da ponta dos pés até a procura pelo corpo ao lado.
Só consegui colocar a carteira de cigarro na mesa entre a sujeira de azeitona, amendoim e papel molhado pra desocupar as minhas mãos de qualquer atitude trêmula do nervosismo que agora imperava em mim. Você ria sempre que eu chamava maço de cigarros de carteira, mas eu não me importava. Você ria quando eu limpava a mesa ao deixar o bar e eu não me preocupava. Você ria e eu já te amava.
Não lembro do nosso primeiro beijo. Não lembro nem mesmo quando e onde te conheci. Grandes chances de ter sido antes ou depois de um de nós vomitar tequilas amargas dos problemas diários. Te ajudei a atravessar a rua e você me ajudou a atravessar a dúvida. Te conduzi fortemente até o meu quarto pra desabar no teu peito e dormir seguro.
Nas histórias de amor que ouço não se abre o botão da calça ao sentar na mesa. É difícil mostrar verdade, chorar a dor e revelar tristeza.Conheci primeiro teus erros, fiz parte deles e sonhei com tua vida inteira. Se é amor que você quer, meu bem, essa noite não terá saideira.
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