terça-feira, 22 de março de 2016
Gorjeta (Rodrigoh Bueno, 2014)
Era sempre o mais visto do bar. Chegava inteiro, ocupando o espaço das mesas, dos olhares e das conversas com as suas histórias que ninguém ousava duvidar. Sabia ser ainda maior mesmo já sendo grande. Ao fim da noite, entre gargalhadas fáceis, escolhia entre os coadjuvantes do cenário que criou, um para ser seu. E um dia, fui eu.
Fui eu que pedi mais uma para o garçom, fui eu que dancei a música que ele escolhia, fui eu que ri do seu sorriso e orgulho. E os seus gestos coreografados só confirmavam que não era um encontro, era um espetáculo. Como ao fim da cena as cortinas se fecham, ao fim da cama os olhos se fecharam. Não cabia mais que um copo na sua boca. Minha presença sobrava. Em outros bares teve os melhores. Tantos braços, tanto beijos. Como numa loja em que se prova tudo, decidiu que ninguém havia de servir.
De mesa em mesa. De cama em cama. Viu seu espaço se tornar o mesmo. E que graça há em repetir a história pra quem já sabe que será o fim? Escolhi o meu fim. Os copos foram se quebrando, mesas esvaziando e ninguém mais refletia o seu olhar. Usou de todos, tantos, que não tinha mais a quem buscar. Enquanto eu de cá sentia - por mim e por ele. Tive tanto sentimento que errava as minhas horas para que um dia pudessem ser as dele. Um dia seus olhos me pediam os outros. Que eu, aflito, procurei. Vi com ele gente tão vazia que preenchia de músculos a pequenez da alma. Nos dias criados com ele eu sorria, nas tantas noites chorando ao quarto, formava a ilha em que só ele sabia chegar.
Não se ouvem mais os passos no bar. A cama é fria como a lembrança de quem por lá passou. Não caminha mais, mas eu conduzo. Reservo o teu lugar pra ver de novo a tua entrada pela porta. Contei tanto as cervejas que bebia que não tive tempo de pedir a minha. Cadê o espaço que nos ocupava? Cadê voz forte de guerreiro? Ao me ver repete a história. Levanta o canto esquerdo da boca como faz quando sente orgulho. Teve o mundo, mas dele não fez parte. Tem a mim.
Era um domingo de manhã. Na verdade não sei se era exatamente um domingo, mas era um desses dias em que se acorda tarde, pega algo na cozinha e se volta para a cama meio que dormindo com a cara entre migalhas de pão no travesseiro. Um domingo bom tem como som do despertador a água fervente passando pelo coador do café. Naquela preguiça de quem nem sabe o que é, e se estende o braço ao lado e percebe o calor do corpo quente. Nesse instante não importa como foi a noite. Em manhã boa não se tem lembrança, tem um braço perdido na cama que mesmo sendo de outro é um pedaço seu. Enquanto o queijo esquenta no chapa de um sanduíche mal feito, amantes se derretem confundindo pernas e combinando planos falhados para um dia que atrasou em começar.
Pego tua xícara de café já meio frio, doce. Não gosto. Sorrio. Reclamo e bebo mais. Acertou que no meu são só duas gotas de adoçante, mas errou ao achar eu saberia de olhos fechados identificar o que era meu e o que era seu. Isso eu nunca soube ao certo, mesmo quando acordado. Roupa espalhada pelo quarto todo e a dúvida de onde foi parar aquele par da meia. Logo eu que nunca me preocupei em guardar as meias juntas procuro por toda a cama a lembrança da minha parte perdida entre você . Eu não quero achar. Em um domingo de manhã, ou nesses dias em que juntos representamos a preguiça toda, não me importo com a segunda – feira ou impressão. Teu peito é o meu lugar e nem precisa me desejar bons sonhos. Sonho com o dia em que as nossas manhãs dormindo sejam para sempre os nossos domingos.
De manhã, aquele medo que me achasse feio. Saí da cama tenso, fugindo como se tivesse cometido um crime, como se não devesse estar ali. Camas que não são barulhentas são cúmplices perfeitas para a insegurança matinal de quem não tem estrutura como as delas. Foge-se dos espelhos da casa, mas nunca do elevador que sempre estará lotado quando o desejo é de não existir. A noite tem acordos implícitos: você me engana fazendo sentir o que não sou e eu não quebro a tua ilusão. Ilusão é a escolha certa na hora errada.
De manhã, aquele medo que me achasse. Ontem me vi no teu reflexo e mesmo com a fumaça do cigarro do bar ou a luz fraca de um ambiente que não será importante para nós, percebi que havia admiração. Ontem, enquanto me olhava te senti antes mesmo de me tocar e este é o melhor contato que qualquer sentido humano pode receber. Recebi os teus elogios entre gargalhadas sedutoras e a mentira de que não comparava o meu corpo com os outros tantos que já teve.
O meu pesadelo é que o Sol acorde o teu olhar de piedade. De manhã não há espaço para o teu mau hálito que carrego no corpo. Não me fale isso, não me olhe assim. Não de manhã.
“Eu te amo”, disse. E o momento não podia ser pior.
Era a mesma mesa da cerveja de ontem. Não foram diferentes os beijos de hoje, não tocou a música que não temos e nem nos olhamos com luz além dos olhos, brilhos, essas coisas que dizem que acontece quando surge um novo amor. Sussurrou ao meu ouvido “eu te amo” quando eu já pegava o maço de cigarro pra te oferecer mais um, pois o seu sempre acabava antes do meu. Eu, acabado, arrotava cervejas e verdades sobre política, cultura e música e sabia que você já não estava ouvindo nada, só esperando a tua vez de falar as tuas vaidades disfarçadas de verdades.
Respeitei o teu momento desde que te conheci. Desde que achei que já te conhecia, e por isso a surpresa da revelação. Me jogou na responsabilidade de uma resposta ou atitude sobre esse sentimento agora dito, uma surpresa que me fez desconfiar do quanto eu te percebi de verdade todo este tempo. Amor falado, assumido ao pé do ouvido desce pelo corpo tipo chá quente, tipo sopa no inverno ocupando todo o espaço interno da ponta dos pés até a procura pelo corpo ao lado.
Só consegui colocar a carteira de cigarro na mesa entre a sujeira de azeitona, amendoim e papel molhado pra desocupar as minhas mãos de qualquer atitude trêmula do nervosismo que agora imperava em mim. Você ria sempre que eu chamava maço de cigarros de carteira, mas eu não me importava. Você ria quando eu limpava a mesa ao deixar o bar e eu não me preocupava. Você ria e eu já te amava.
Não lembro do nosso primeiro beijo. Não lembro nem mesmo quando e onde te conheci. Grandes chances de ter sido antes ou depois de um de nós vomitar tequilas amargas dos problemas diários. Te ajudei a atravessar a rua e você me ajudou a atravessar a dúvida. Te conduzi fortemente até o meu quarto pra desabar no teu peito e dormir seguro.
Nas histórias de amor que ouço não se abre o botão da calça ao sentar na mesa. É difícil mostrar verdade, chorar a dor e revelar tristeza.Conheci primeiro teus erros, fiz parte deles e sonhei com tua vida inteira. Se é amor que você quer, meu bem, essa noite não terá saideira.
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
Descobrem-se os dias com as mais grossas cobertas. Escondidas as marcas que tenho e nem mesmo sei. Criando texturas em teclas tão frias. Impressões ainda sem cara e memórias de tempos que desde o início eu sozinho crei. Desenho meus dias com o corpo bobo, cansado, triste, desengonçado. Sem jeito, errado. Um ridículo sorridente, perdido no tempo: o apaixonado. E segue, longe e feliz a história inventada que um dia eu amei.
"Nem fome, nem falta de comida. Nem a aids, o câncer, o sagitário e muito menos o escorpião. Não é a economia nem a política externa. A questão é interna, intensa e intrusa. Internacional e principalmente individual. Pra o que se sente não tem remédio, não tem colégio nem explicação. Pra dor da gente, que só a gente sente, ninguém no mundo tem solução."
Tua respiração sempre atrapalhou a minha insônia. O irritante barulho frequente se tornou um hábito. O teu hálito ao acordar me falando de amor com o travesseiro ainda suado, babado, amarrotado. Tua cabeça pesava no meu peito e não me deixava dormir. Mas as frases sem sentido que falava enquanto dormia me deixavam sonhar. Teu pé frio no meio da noite só irritava por mostrar que era você que estava do meu lado. Quando acordar, saia bem devagar. Saia, mas pra sempre voltar.
No fim da noite, não sei se por efeito do momento, da bebida ou de algum sentimento. Talvez até pela mistura dessas três dúvidas, segurou a minha mão.
Apertou forte com orgulho de deixar ali as suas digitais, de mostrar que marcou.
Quando soltou, vi que as marcas resistiam. E o que antes era a minha identidade agora é seu. São as suas digitais nos meus dedos que me condenam a viver nesta prisão.
Não pensava na hora da alegria. Não considerava alegria uma verdade pensada.
Fugia da derrota anunciada. Como convém ao bom vilão e ao mau super-herói.
Mas não vencia a própria razão. E quando isso acontece, dói. Colando avisos, faixas, bandeiras. Pedindo ajuda pra quem no mundo ousasse entender. Que a pior missão, a mais difícil, é ter que lembrar que tem que esquecer.
sexta-feira, 25 de junho de 2010
Felizes?
Sorri, como quem estampa na cara dos outros a felicidade que não tem! Gargalha entre os teus amigos e mostra que não há pessoas melhores que as que te rodeiam. Esfrega na cara da humanidade que ninguém jamais foi, é ou será mais interessante, incrível e insubstituível que você. Os que sobram? Você nem percebe que há pessoas que não estão nos seus assuntos e se orgulha de não se importar com a existência destes que considera... Enfim, que nem considera.
Ao lado, vejo os seres orgânicos que não riem como você, pois tem vidas reais. Não comemoram as suas histórias, pois de verdade não concordam e com verdade tratarão suas questões. Não dividem as gargalhadas freqüentes contigo, mas quando o fazem riem com toda a verdade que só uma relação real pode conter. Te preocupas em mostrar o quanto está feliz? Pois me preocupo em ser feliz e para isso dependo da opinião dos outros, assim como você. Mas enquanto perdes tempo pensando em como te vêem, prefiro saber o que elas pensam sobre elas mesmas e admirar a beleza da contradição e das perguntas que sempre geram respostas.
Ao lado, vejo os seres orgânicos que não riem como você, pois tem vidas reais. Não comemoram as suas histórias, pois de verdade não concordam e com verdade tratarão suas questões. Não dividem as gargalhadas freqüentes contigo, mas quando o fazem riem com toda a verdade que só uma relação real pode conter. Te preocupas em mostrar o quanto está feliz? Pois me preocupo em ser feliz e para isso dependo da opinião dos outros, assim como você. Mas enquanto perdes tempo pensando em como te vêem, prefiro saber o que elas pensam sobre elas mesmas e admirar a beleza da contradição e das perguntas que sempre geram respostas.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Agrido
Hoje eu te agrido. Sua sorte é não ter cruzado meu caminho hoje. Não ter pensado ou feito nada para se aproximar de mim no dia de hoje. Tenho raiva de ti pelo sentimento que despertou em mim. Por que aparecer na vida para me esconder de ti? Onde foi parar a segurança emocional que me segurava das emoções?
A razão está ao meu lado, por isso escrevo. Cada passo que der em sua direção me deixará mais longe de ti. Anseio pelo nosso não encontro e temo que isso se torne meu grande prazer. Não te encontrar é manter a história. É certificar que o que aconteceu não foi desfeito e nenhuma nova informação alterou aqueles momentos inalteráveis.
Mas tenho muita raiva de ti no dia de hoje. Não atendi sua ligação para manter a dúvida do que poderia ter me dito. Outro convite de casamento poderia ser anunciado – seu ou nosso. O rancor vem de pensar que me ligaste só por que lembrou de algo que te disse. Só para saber se estou bem e assim livrar-se da responsabilidade de ter sido amado sem pedir. Provavelmente falaríamos do assunto com risadas, eu medindo as palavras e me perdendo no espaço minúsculo que devo ter na sua vida.
Não me ligue mais e mantenha-se longe dos meus olhos que te procuram. Não me procure para falar de assuntos só nossos e torna-os teus.
A razão está ao meu lado, por isso escrevo. Cada passo que der em sua direção me deixará mais longe de ti. Anseio pelo nosso não encontro e temo que isso se torne meu grande prazer. Não te encontrar é manter a história. É certificar que o que aconteceu não foi desfeito e nenhuma nova informação alterou aqueles momentos inalteráveis.
Mas tenho muita raiva de ti no dia de hoje. Não atendi sua ligação para manter a dúvida do que poderia ter me dito. Outro convite de casamento poderia ser anunciado – seu ou nosso. O rancor vem de pensar que me ligaste só por que lembrou de algo que te disse. Só para saber se estou bem e assim livrar-se da responsabilidade de ter sido amado sem pedir. Provavelmente falaríamos do assunto com risadas, eu medindo as palavras e me perdendo no espaço minúsculo que devo ter na sua vida.
Não me ligue mais e mantenha-se longe dos meus olhos que te procuram. Não me procure para falar de assuntos só nossos e torna-os teus.
Era
E assim aconteceu o amor. E que ninguém diga que estes dias não representaram o mais fiel e puro amor, daqueles clássicos contados por gerações e os ansiados por românticos de todo o mundo. Que ninguém diga que aqueles dias curtos não foram os mais belos de uma história que só teve este tempo, que as gargalhadas não tenham sido infinitas por terem um final anunciado. Ambos amaram tanto e com tanta vontade que o amor foi consumido, saboreado.
“gracias a la vida”
“gracias a la vida”
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
Ligação
Eu não pude atender sua ligação. Não estava ocupado, mas não estava preparado. Na verdade nos segundos em que tive que decidir se atendia ou não eu tive a certeza de que você não estava preparado para me ouvir. Quero tanto receber suas ligações que me contendo com seu nome piscando na tela do telefone. Falar contigo poderia estragar a delícia de sentir que você teve vontade de falar comigo. Você não deve estar preparado, deve seguir sua vida, escovar seus dentes e ouvir suas músicas como faz desde sempre. Você não deve estar preparado para seguir minhas músicas e escovar meus dentes. Não aceito nada de nós que seja raso. Nem sei como o faria contigo. Nem sei como reagiria ao ouvir sua voz do outro lado da linha. Começo a esquecer a sua voz e isso me faz bem. Acho que nunca tive registro da sua voz ou do seu rosto, só referências e encanto.
Como atender então a chamada de um desconhecido? Iria finalmente tirar as máscaras por telefone e revelar essas tuas fraquezas que tanto gosto? Creio que não. Em nossos melhores momentos estamos calados, com a cumplicidade de quem sente que o que é bom é simples. Te vi simples e te fiz simples. Simplifiquei teus problemas, pois sei que ao meu lado eles não seriam nada, resolveria todos pra te ver sorrindo novamente. Que olhar cansado carrega. Que peso é este sobre os olhos de poeta abandonado, de homem sem amor. Ama-me e prova que tudo isso que escrevi não faz sentido, que somos melhores juntos e só assim é possível ser. Liga-me só mais uma vez e prometo perder o medo e a razão.
Como atender então a chamada de um desconhecido? Iria finalmente tirar as máscaras por telefone e revelar essas tuas fraquezas que tanto gosto? Creio que não. Em nossos melhores momentos estamos calados, com a cumplicidade de quem sente que o que é bom é simples. Te vi simples e te fiz simples. Simplifiquei teus problemas, pois sei que ao meu lado eles não seriam nada, resolveria todos pra te ver sorrindo novamente. Que olhar cansado carrega. Que peso é este sobre os olhos de poeta abandonado, de homem sem amor. Ama-me e prova que tudo isso que escrevi não faz sentido, que somos melhores juntos e só assim é possível ser. Liga-me só mais uma vez e prometo perder o medo e a razão.
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
Motivo
Encontrei o tal bom motivo pra te ligar. Quando ouvi as histórias da terra que gosta de dizer sua, pensei que seu ego quixotesco de cavaleiro herói seria acariciado com a lembrança. Te conheço tanto que sei que nada importaria dividir contigo qualquer aflição que não fosse a sua. Pois infla-te mais uma vez com a certeza que quase te procurei. É o máximo que darei a ti, a certeza que carrega de que vejo poesia em tua vida. Vejo mais que tu mesmo, crio nos teus dias histórias maravilhosas para ti, e segues apenas pensando em ti mesmo – o que fazes tão bem. Te alimento com meus sonhos e as batalhas das tuas horas são vencidas apenas pelo meu desejo de manter-te tão longe.
Fica no castelo, no alto do morro observando um mundo que não é seu e deixa que eu traduza em versos as emoções de pessoas que nunca conhecerá. O vento que bate em teus cabelos chega frio aos olhos dos outros. Frio é teu olhar para a gente que nunca pensou existir. Quis ligar-te e resisti com a garra de herói e o medo de menino. Que faria eu se não te encontrasse em batalhas distantes contra teus próprios medos? Meu prazer é te imaginar e qualquer toque traria novamente a realidade sublimada em sonho. Mantém-te sonho que te garanto as doses de poesia. Não faltarão cartas para contar a nossa história e enquanto as escrevo escondo e escolho o final feliz.
Fica no castelo, no alto do morro observando um mundo que não é seu e deixa que eu traduza em versos as emoções de pessoas que nunca conhecerá. O vento que bate em teus cabelos chega frio aos olhos dos outros. Frio é teu olhar para a gente que nunca pensou existir. Quis ligar-te e resisti com a garra de herói e o medo de menino. Que faria eu se não te encontrasse em batalhas distantes contra teus próprios medos? Meu prazer é te imaginar e qualquer toque traria novamente a realidade sublimada em sonho. Mantém-te sonho que te garanto as doses de poesia. Não faltarão cartas para contar a nossa história e enquanto as escrevo escondo e escolho o final feliz.
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
Manhãs
E como a lua surge naturalmente e sem esforço pra se tornar única no céu, o amor foi brilhando gradualmente e se tornou a maior beleza da minha vida. Mesmo que nuvens surjam e tentem encobrir tamanha beleza, não há dúvida de que o amor segue iluminando, dando sentido e beleza em todas as noites.
Não resisto às tuas noites, mas principalmente às tuas manhãs. Quando acordo ao teu lado tenho a extensão do brilho durante todo o meu dia. Quando te vejo dormindo me perco nos teus sonhos, mas acordo sem dúvida de que assim como a lua, nosso amor está cada dia mais radiante e naturalmente iluminado.
Não resisto às tuas noites, mas principalmente às tuas manhãs. Quando acordo ao teu lado tenho a extensão do brilho durante todo o meu dia. Quando te vejo dormindo me perco nos teus sonhos, mas acordo sem dúvida de que assim como a lua, nosso amor está cada dia mais radiante e naturalmente iluminado.
Palavra
Ao nascer te definem com palavras chamadas nome. E de forma desproposital te jogam a responsabilidade de depender destas e de tantas outras palavras para simplesmente ser. O que se aprende ou o que se faz até a última palavra dita depende exclusivamente da forma com que une esses termos. Palavras ditas, malditas e não ditas trazem e afastam pessoas, que te inundam com palavras que geram sentimentos – só existentes por que definidos com novas palavras. Quando se trabalha com palavras, a culpa é ainda maior, pois elas são pensadas, escolhidas com a atenção que muitos não tem. Perder ou esquecer uma palavra é deixar que um acontecimento não gere sentimento e que a palavra perca o sentido para um ser que precisa ter um nome.
quinta-feira, 2 de outubro de 2008
Sonho
Sempre defendi que o sonho, mais que uma previsão, era algo que já estava na cabeça da pessoa que dorme. Para você criar uma história é preciso que pelo menos uma referência já tenha sido processada, alguma imagem, som ou lugar. Será que quando se sonha que alguém magoa de forma intensa e brutal, a chance de ser você a cometer aquele ato, é grande?
“São lembranças de um tempo esquecido ou serão previsões de te ver por aqui”
De qualquer forma, se trata apenas de um sonho, algo imaginário que não aconteceu e, portanto, pode nunca acontecer. A escolha é o grande privilégio do homem: magoar e ser magoado depende de ações e não de sonhos. Eu escolho evitar qualquer situação que fira alguém, até porque o sonho já me revelou que o desconforto está somente na minha cabeça.
“São lembranças de um tempo esquecido ou serão previsões de te ver por aqui”
De qualquer forma, se trata apenas de um sonho, algo imaginário que não aconteceu e, portanto, pode nunca acontecer. A escolha é o grande privilégio do homem: magoar e ser magoado depende de ações e não de sonhos. Eu escolho evitar qualquer situação que fira alguém, até porque o sonho já me revelou que o desconforto está somente na minha cabeça.
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
Abro
Abro mão da nossa felicidade pela minha. Não é conversa de mártir nem poeta que passa mais tempo descrevendo as emoções que vivendo-as. É por te amar que preciso te ver crescer. Somos ótimos juntos e acredito que seremos sempre melhores. Vá sem medo, vá disposto a conhecer e entender o que a vida lhe atribui. Eu fico para ver o que a vida igualmente me reservou, qual a minha parte que foi contigo e qual a parte que será melhor pra você um dia.
Se hoje me despeço, é na expectativa do reencontro. Livre, natural, bom e à vontade, como em um passeio matinal ou em um jantar já planejado. A parte de mim que hoje sofre estará melhor quando você realmente for. Tua ausência é a mais profunda e legítima presença de mim mesmo e dos meus sentimentos em relação a ti.
Se hoje me despeço, é na expectativa do reencontro. Livre, natural, bom e à vontade, como em um passeio matinal ou em um jantar já planejado. A parte de mim que hoje sofre estará melhor quando você realmente for. Tua ausência é a mais profunda e legítima presença de mim mesmo e dos meus sentimentos em relação a ti.
terça-feira, 30 de setembro de 2008
Melhor
Um amor não se transforma, envelhece. O vivido, o sentimento que aconteceu está guardado de forma intacta, mas como toda forma viva, envelhece. Os problemas do relacionamento já são conhecidos e por isso o desconforto vai atingindo graus elevados. Cada atitude não é nova, e embora as pessoas que ali estejam sejam completamente diferentes de quando se conheceram, a relação entre eles foi mantida, com as impressões envelhecidas de um amor que não deu certo.
Claro que deu certo por um tempo, mas se fosse assim tão perfeito ambos estariam juntos e permaneceriam assim para sempre. Não acredito em mundo exterior que enfraqueceu a relação. A vontade de estar ao lado da pessoa causa a força de enfrentar tudo.
Amo o que você causa em mim, mas não suporto não estar à vontade ao seu lado. São lembranças de um tempo em que fazia sentido eu me sentir assim. Talvez tenha sido justamente você que me fez sentir que era normal não estar à vontade contigo. Será? Eu poderia não ter referência e por isso fui moldado para ser tão seu companheiro que abri mão de mim. Amo tua pessoas, mas mesmo assim não vejo espaço para você na minha vida. Parece que estamos sempre relacionados, mas por caminhos tão seus e tão meus que só se encontram nesses pontos. E por que me trata como grande inimigo? É um amor mal curado? Uma mágoa por não ter conseguido administrar a situação no final?
Quero me libertar e vejo que te reencontrar só serviu para eu ver exatamente de onde vim, e por que carrego tanto medo. Você foi a melhor referência que tive, me ensinou o que eu pensei que nem existia. Senti coisas que me fizeram pensar que o mundo era meu. O mundo era meu antes de te conhecer. Você foi a melhor referência por que eu era melhor.
Claro que deu certo por um tempo, mas se fosse assim tão perfeito ambos estariam juntos e permaneceriam assim para sempre. Não acredito em mundo exterior que enfraqueceu a relação. A vontade de estar ao lado da pessoa causa a força de enfrentar tudo.
Amo o que você causa em mim, mas não suporto não estar à vontade ao seu lado. São lembranças de um tempo em que fazia sentido eu me sentir assim. Talvez tenha sido justamente você que me fez sentir que era normal não estar à vontade contigo. Será? Eu poderia não ter referência e por isso fui moldado para ser tão seu companheiro que abri mão de mim. Amo tua pessoas, mas mesmo assim não vejo espaço para você na minha vida. Parece que estamos sempre relacionados, mas por caminhos tão seus e tão meus que só se encontram nesses pontos. E por que me trata como grande inimigo? É um amor mal curado? Uma mágoa por não ter conseguido administrar a situação no final?
Quero me libertar e vejo que te reencontrar só serviu para eu ver exatamente de onde vim, e por que carrego tanto medo. Você foi a melhor referência que tive, me ensinou o que eu pensei que nem existia. Senti coisas que me fizeram pensar que o mundo era meu. O mundo era meu antes de te conhecer. Você foi a melhor referência por que eu era melhor.
Revival teatral reflete crise de dramaturgia
A estréia do monólogo "Brincando em Cima Daquilo" em São Paulo, amanhã, dá impulso definitivo à onda de remontagens de textos bem-sucedidos na década de 80 que toma a cena paulistana, depois de passar pelo Rio.
Priscila Prade/Divulgação
Atores Marcelo Médici e Cássio Scapin atuam na peça "O Mistério de Irma Vap" em São Paulo
A peça estrelada por Debora Bloch se junta a "O Mistério de Irma Vap" e "Doce Deleite" no "revival" oitentista --que toma ares de tributo a Marília Pêra, envolvida nas produções originais das três peças.
Dramaturgos ouvidos pela reportagem fazem ressalvas à maré saudosista; produtores contemporizam.
Alcione Araújo, autor dos esquetes de "Doce Deleite", diz que ficou surpreso com o êxito da remontagem protagonizada por Camila Morgado e Reynaldo Gianecchini --29.929 espectadores em quatro meses de temporada carioca, apesar de críticas pouco entusiasmadas da imprensa local. Ele sugere três hipóteses para a boa acolhida: a possível perenidade das histórias, a estagnação na percepção de comédia por parte das platéias ou a regressão do próprio humor brasileiro.
"Com o fim da ditadura e dos antagonismos mais explícitos, o nosso teatro se associou ao entretenimento e deixou de ser uma indagação mais densa sobre o homem no espaço social. As questões políticas e sociais que motivaram a minha geração se tornaram programa de governo; os artistas se desimcumbiram dessa missão [levantar bandeiras político-sociais]".
Rodrigo Marcondes/Folha Imagem
Reynaldo Gianecchini e Camila Morgado posam com a diretora de "Doce Deleite, Marília Pêra
Para ele, "diante de um horizonte sem grandes nuances", a objetividade do produtor teatral o faz recorrer a títulos que emplacaram no passado. "Hoje, no Brasil, essa ideologia do resultado imediatista vingou, do sindicalismo à vida cultural."
Os autores que poderiam renovar essa engrenagem, observa Araújo, têm as atenções voltadas para outras áreas. "As pessoas que têm algum talento para a escrita e para a narrativa dramática estão optando pela TV ou pelo cinema. O teatro deixou de ser um formulador de idéias, ainda não encontrou uma linguagem que vá mais fundo no homem."
Sem inquietação
O autor e diretor Amir Haddad, responsável pela dramaturgia de "Brincando em Cima Daquilo", faz coro no que se refere à falta de material inédito de qualidade: "Não sinto tendências, modernidade na dramaturgia brasileira atual. Faltam textos novos que a gente se sinta estimulado a montar. A inquietação fica reduzida a alguns núcleos".
Ele insere a crise da cena nacional num contexto global de falência "da dramaturgia do teatro burguês realista". "Era necessário haver um teatro que rompesse a ideologia e falasse da decadência -o que ainda não temos coragem de fazer."
Haddad frisa, entretanto, que a situação brasileira é especialmente grave por causa da "quebra de um pacto social entre artistas, vida cultural e país":
"A partir daí, a produção perdeu muito em qualidade. Passamos a ser terra de ninguém, e assunto nenhum nos parecia suficientemente interessante. Nos internacionalizamos sem nenhum compromisso. Vinte anos de ditadura e mais um período neoliberal violento foram suficientes para acabar com as ligações dos artistas com seu lugar. Isso produziu um empobrecimento geral."
E sobe o tom das críticas. "O sistema de estrelas se implantou sem responsabilidade. A coisa brasileira ficou "farinha pouca, meu pirão primeiro"."
O diretor avalia ser compreensível que produtores busquem montagens que "não sejam investimentos a fundo perdido", mas acha que os das peças de agora erraram a mão:
"Remontar esses textos não significa nada. A remontagem de 'Doce Deleite' é de um vazio de dramaturgia absoluto. E 'Irma Vap' jamais será o acontecimento que foi naquela época [86-97] por causa de dois atores maravilhosos [Marco Nanini e Ney Latorraca]. A da Debora [com dramaturgia dele] é a mais interessante, pois é uma releitura de acordo com os tempos de hoje".
Produtores
A produtora Andrea Francez, de "O Mistério de Irma Vap", discorda. "Os grandes textos têm de ser remontados, como se faz com [William] Shakespeare e [Bertolt] Brecht." Para ela, "sair para pesquisar" novos textos não é tão fácil "quanto se gostaria". "Seria interessante que houvesse um banco de peças na internet."
Eduardo Barata, produtor de "Brincando..." e "Doce Deleite", também julga que "essas dramaturgias não envelheceram". "Várias gerações não assistiram a esses espetáculos. Acho justo remontar para elas."
Priscila Prade/Divulgação
Atores Marcelo Médici e Cássio Scapin atuam na peça "O Mistério de Irma Vap" em São Paulo
A peça estrelada por Debora Bloch se junta a "O Mistério de Irma Vap" e "Doce Deleite" no "revival" oitentista --que toma ares de tributo a Marília Pêra, envolvida nas produções originais das três peças.
Dramaturgos ouvidos pela reportagem fazem ressalvas à maré saudosista; produtores contemporizam.
Alcione Araújo, autor dos esquetes de "Doce Deleite", diz que ficou surpreso com o êxito da remontagem protagonizada por Camila Morgado e Reynaldo Gianecchini --29.929 espectadores em quatro meses de temporada carioca, apesar de críticas pouco entusiasmadas da imprensa local. Ele sugere três hipóteses para a boa acolhida: a possível perenidade das histórias, a estagnação na percepção de comédia por parte das platéias ou a regressão do próprio humor brasileiro.
"Com o fim da ditadura e dos antagonismos mais explícitos, o nosso teatro se associou ao entretenimento e deixou de ser uma indagação mais densa sobre o homem no espaço social. As questões políticas e sociais que motivaram a minha geração se tornaram programa de governo; os artistas se desimcumbiram dessa missão [levantar bandeiras político-sociais]".
Rodrigo Marcondes/Folha Imagem
Reynaldo Gianecchini e Camila Morgado posam com a diretora de "Doce Deleite, Marília Pêra
Para ele, "diante de um horizonte sem grandes nuances", a objetividade do produtor teatral o faz recorrer a títulos que emplacaram no passado. "Hoje, no Brasil, essa ideologia do resultado imediatista vingou, do sindicalismo à vida cultural."
Os autores que poderiam renovar essa engrenagem, observa Araújo, têm as atenções voltadas para outras áreas. "As pessoas que têm algum talento para a escrita e para a narrativa dramática estão optando pela TV ou pelo cinema. O teatro deixou de ser um formulador de idéias, ainda não encontrou uma linguagem que vá mais fundo no homem."
Sem inquietação
O autor e diretor Amir Haddad, responsável pela dramaturgia de "Brincando em Cima Daquilo", faz coro no que se refere à falta de material inédito de qualidade: "Não sinto tendências, modernidade na dramaturgia brasileira atual. Faltam textos novos que a gente se sinta estimulado a montar. A inquietação fica reduzida a alguns núcleos".
Ele insere a crise da cena nacional num contexto global de falência "da dramaturgia do teatro burguês realista". "Era necessário haver um teatro que rompesse a ideologia e falasse da decadência -o que ainda não temos coragem de fazer."
Haddad frisa, entretanto, que a situação brasileira é especialmente grave por causa da "quebra de um pacto social entre artistas, vida cultural e país":
"A partir daí, a produção perdeu muito em qualidade. Passamos a ser terra de ninguém, e assunto nenhum nos parecia suficientemente interessante. Nos internacionalizamos sem nenhum compromisso. Vinte anos de ditadura e mais um período neoliberal violento foram suficientes para acabar com as ligações dos artistas com seu lugar. Isso produziu um empobrecimento geral."
E sobe o tom das críticas. "O sistema de estrelas se implantou sem responsabilidade. A coisa brasileira ficou "farinha pouca, meu pirão primeiro"."
O diretor avalia ser compreensível que produtores busquem montagens que "não sejam investimentos a fundo perdido", mas acha que os das peças de agora erraram a mão:
"Remontar esses textos não significa nada. A remontagem de 'Doce Deleite' é de um vazio de dramaturgia absoluto. E 'Irma Vap' jamais será o acontecimento que foi naquela época [86-97] por causa de dois atores maravilhosos [Marco Nanini e Ney Latorraca]. A da Debora [com dramaturgia dele] é a mais interessante, pois é uma releitura de acordo com os tempos de hoje".
Produtores
A produtora Andrea Francez, de "O Mistério de Irma Vap", discorda. "Os grandes textos têm de ser remontados, como se faz com [William] Shakespeare e [Bertolt] Brecht." Para ela, "sair para pesquisar" novos textos não é tão fácil "quanto se gostaria". "Seria interessante que houvesse um banco de peças na internet."
Eduardo Barata, produtor de "Brincando..." e "Doce Deleite", também julga que "essas dramaturgias não envelheceram". "Várias gerações não assistiram a esses espetáculos. Acho justo remontar para elas."
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
"Pequenos Burgueses" marcou o início da época de ouro do Oficina
da Folha Online
"Xamã é a função que Zé Celso exerce na comunidade teatral brasileira. Aglutina forças vitais, evoca os deuses e espíritos da devoção dos cidadãos, provoca a libido, incita à desobediência". Aimar Labaki, dramaturgo
A segunda atuação de José Celso Martinez Corrêa como diretor foi com a peça "Os Pequenos Burgueses", do dramaturgo russo Máximo Gorki. O espetáculo tinha no elenco atores como Raul Cortez e Rosamaria Murtinho e marcou o amadurecimento artístico tanto do diretor como do Teatro Oficina, que nasceu como grupo amador criado pelo próprio Zé Celso, Renato Borghi e outros amigos na Faculdade de Direito da USP.
Reprodução
Folha explica a obra do diretor de teatro José Celso Martinez Corrêa
No volume "José Celso Martinez Corrêa", da série Folha Explica, o dramaturgo Aimar Labaki mostra esse que foi o início da época áurea e "adulta" do Oficina, quando o grupo deixou para trás os textos "adolescentes" e amadores.
A estréia ocorreu apenas cinco meses antes do Golpe Militar e foi definida, na época, como "o melhor espetáculo realista do Brasil" pelo crítico teatral Sábato Magaldi.
Leia o trecho abaixo:
*
O BURGUÊS MADURO
O Brasil viveu um período de democracia formal que durou de 1946 a 1964. Menos de 20 anos, mas o suficiente para um salto qualitativo na vida política e cultural do país. Aos "50 anos em cinco" de Juscelino correspondeu uma refundação da arte brasileira - bossa-nova, Teatro de Arena, Oficina, cinema novo, concretismo, tropicalismo.
A burguesia paulista, como parte de sua busca de legitimação, criou instituições que possibilitassem a ela mesma e à classe média acesso a uma produção cultural condizente com sua aspiração à condição de cosmopolita e integrada aos hábitos de consumo cultural do Primeiro Mundo. A Universidade de São Paulo, fundada nos anos 30, formou a mão-de-obra intelectual necessária para embasar, compreender, legitimar e dar visibilidade à produção cultural que surgiria como fruto desse investimento. Dela viriam os grandes críticos dos anos 50 e 60, Decio de Almeida Prado, Antonio Candido, Paulo Emílio Salles Gomes. A partir de 1945, as instituições se multiplicaram: Masp, Bienal, Cinemateca etc.
Pandora aberta, o início dos anos 60 foi de radicalização política. A aventura de Jânio Quadros desembocou na república populista de João Goulart. Experiências como o CPC e o método Paulo Freire cruzavam a linha do permitido no contexto da aproximação tática entre o Partido Comunista e uma suposta fração progressista da burguesia. Que a classe média pregasse para si mesma (por exemplo, fazendo espetáculos no minúsculo Teatro de Arena, abarrotado de estudantes), tudo bem. Dialogar com os operários ou camponeses já eram outros quinhentos réis.
À retórica da esquerda não correspondia uma real correlação de forças que apoiassem as reformas propostas e a revolução subentendida. A vitória dos golpistas de 64 foi fruto desse desequilíbrio.
Pequenos Burgueses estreou em 30 de outubro de 1963, cinco meses antes do golpe. No texto de Máximo Gorki, Zé Celso encontrou o material para mostrar os paralelos entre a Rússia pré-revolucionária e o Brasil, que se acreditava num momento semelhante. As personagens da peça eram pequenos burgueses que se apegavam a seus costumes e crenças sem perceberem que as mudanças na sociedade eram irreversíveis e inevitáveis. Servia como uma metáfora premonitória de qual seria a posição da classe média diante do golpe militar. Mas num primeiro momento, em outubro de 1963, o que se podia ler era apenas a referência ao clima pré-revolucionário.
Foi um momento de dupla maturação. Por um lado, Zé Celso, em sua segunda direção profissional, realizava o que Sábato Magaldi definiria como "o melhor espetáculo realista do Brasil"; o dramaturgo, que havia menos de dois anos achava que não tinha talento específico para a direção e que chegara a convidar Luís Carlos Maciel para dirigir aquele mesmo espetáculo, compreendera e incorporara Stanislavski como nenhum dos estrangeiros tinha feito no Brasil. Por outro lado, um elenco extraordinário, que amadurecera na sala de aula e de ensaios sob a batuta de Kusnet: Renato Borghi, Ronaldo Daniel, Célia Helena, Rosamaria Murtinho, Miriam Mehler, Raul Cortez e Ítala Nandi, entre outros.
A Censura proibiu o espetáculo em 3 de abril de 1964. Assustados com os boatos sobre prisões e listas de procurados, Zé Celso, Borghi e Fernando Peixoto (outra figura central nessa fase do Oficina) se refugiaram num sítio da família de Célia Helena. O teatro, vigiado pelas forças de repressão, foi ocupado da manhã à noite com o curso de Kusnet, que abriu novas turmas. À noite, ensaiava-se Toda Donzela Tem um Pai Que É uma Fera, comédia de Gláucio Gil, escalada para salvar a bilheteria, já que o repertório não mais lhes pertencia. A direção era de Benedito Corsi. Numa substituição de emergência, durante os ensaios, entrou, para ajudar o grupo no momento difícil, o já astro da televisão Tarcísio Meira.
Mas a proibição de Pequenos Burgueses foi suspensa, após batalha judicial e pagamento de um valor considerável à Censura (a liberdade, mesmo relativa, tem seu preço). A crônica da pré-revolução-que-não-aconteceu voltou a cartaz, com sessões abarrotadas. A comédia foi transferida para outra sala, também com estrondoso sucesso.
"Xamã é a função que Zé Celso exerce na comunidade teatral brasileira. Aglutina forças vitais, evoca os deuses e espíritos da devoção dos cidadãos, provoca a libido, incita à desobediência". Aimar Labaki, dramaturgo
A segunda atuação de José Celso Martinez Corrêa como diretor foi com a peça "Os Pequenos Burgueses", do dramaturgo russo Máximo Gorki. O espetáculo tinha no elenco atores como Raul Cortez e Rosamaria Murtinho e marcou o amadurecimento artístico tanto do diretor como do Teatro Oficina, que nasceu como grupo amador criado pelo próprio Zé Celso, Renato Borghi e outros amigos na Faculdade de Direito da USP.
Reprodução
Folha explica a obra do diretor de teatro José Celso Martinez Corrêa
No volume "José Celso Martinez Corrêa", da série Folha Explica, o dramaturgo Aimar Labaki mostra esse que foi o início da época áurea e "adulta" do Oficina, quando o grupo deixou para trás os textos "adolescentes" e amadores.
A estréia ocorreu apenas cinco meses antes do Golpe Militar e foi definida, na época, como "o melhor espetáculo realista do Brasil" pelo crítico teatral Sábato Magaldi.
Leia o trecho abaixo:
*
O BURGUÊS MADURO
O Brasil viveu um período de democracia formal que durou de 1946 a 1964. Menos de 20 anos, mas o suficiente para um salto qualitativo na vida política e cultural do país. Aos "50 anos em cinco" de Juscelino correspondeu uma refundação da arte brasileira - bossa-nova, Teatro de Arena, Oficina, cinema novo, concretismo, tropicalismo.
A burguesia paulista, como parte de sua busca de legitimação, criou instituições que possibilitassem a ela mesma e à classe média acesso a uma produção cultural condizente com sua aspiração à condição de cosmopolita e integrada aos hábitos de consumo cultural do Primeiro Mundo. A Universidade de São Paulo, fundada nos anos 30, formou a mão-de-obra intelectual necessária para embasar, compreender, legitimar e dar visibilidade à produção cultural que surgiria como fruto desse investimento. Dela viriam os grandes críticos dos anos 50 e 60, Decio de Almeida Prado, Antonio Candido, Paulo Emílio Salles Gomes. A partir de 1945, as instituições se multiplicaram: Masp, Bienal, Cinemateca etc.
Pandora aberta, o início dos anos 60 foi de radicalização política. A aventura de Jânio Quadros desembocou na república populista de João Goulart. Experiências como o CPC e o método Paulo Freire cruzavam a linha do permitido no contexto da aproximação tática entre o Partido Comunista e uma suposta fração progressista da burguesia. Que a classe média pregasse para si mesma (por exemplo, fazendo espetáculos no minúsculo Teatro de Arena, abarrotado de estudantes), tudo bem. Dialogar com os operários ou camponeses já eram outros quinhentos réis.
À retórica da esquerda não correspondia uma real correlação de forças que apoiassem as reformas propostas e a revolução subentendida. A vitória dos golpistas de 64 foi fruto desse desequilíbrio.
Pequenos Burgueses estreou em 30 de outubro de 1963, cinco meses antes do golpe. No texto de Máximo Gorki, Zé Celso encontrou o material para mostrar os paralelos entre a Rússia pré-revolucionária e o Brasil, que se acreditava num momento semelhante. As personagens da peça eram pequenos burgueses que se apegavam a seus costumes e crenças sem perceberem que as mudanças na sociedade eram irreversíveis e inevitáveis. Servia como uma metáfora premonitória de qual seria a posição da classe média diante do golpe militar. Mas num primeiro momento, em outubro de 1963, o que se podia ler era apenas a referência ao clima pré-revolucionário.
Foi um momento de dupla maturação. Por um lado, Zé Celso, em sua segunda direção profissional, realizava o que Sábato Magaldi definiria como "o melhor espetáculo realista do Brasil"; o dramaturgo, que havia menos de dois anos achava que não tinha talento específico para a direção e que chegara a convidar Luís Carlos Maciel para dirigir aquele mesmo espetáculo, compreendera e incorporara Stanislavski como nenhum dos estrangeiros tinha feito no Brasil. Por outro lado, um elenco extraordinário, que amadurecera na sala de aula e de ensaios sob a batuta de Kusnet: Renato Borghi, Ronaldo Daniel, Célia Helena, Rosamaria Murtinho, Miriam Mehler, Raul Cortez e Ítala Nandi, entre outros.
A Censura proibiu o espetáculo em 3 de abril de 1964. Assustados com os boatos sobre prisões e listas de procurados, Zé Celso, Borghi e Fernando Peixoto (outra figura central nessa fase do Oficina) se refugiaram num sítio da família de Célia Helena. O teatro, vigiado pelas forças de repressão, foi ocupado da manhã à noite com o curso de Kusnet, que abriu novas turmas. À noite, ensaiava-se Toda Donzela Tem um Pai Que É uma Fera, comédia de Gláucio Gil, escalada para salvar a bilheteria, já que o repertório não mais lhes pertencia. A direção era de Benedito Corsi. Numa substituição de emergência, durante os ensaios, entrou, para ajudar o grupo no momento difícil, o já astro da televisão Tarcísio Meira.
Mas a proibição de Pequenos Burgueses foi suspensa, após batalha judicial e pagamento de um valor considerável à Censura (a liberdade, mesmo relativa, tem seu preço). A crônica da pré-revolução-que-não-aconteceu voltou a cartaz, com sessões abarrotadas. A comédia foi transferida para outra sala, também com estrondoso sucesso.
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
Capas da Elenco
Responsável pelas capas da Elenco, César Villela ajudou a criar a imagem da bossa (31/07/08)
por: RONALDO EVANGELISTA
Colaboração para o UOL
César Villela é um dos mais influentes artistas gráficos brasileiros. Começou a invadir o inconsciente coletivo de todos os brasileiros interessados em música no fim dos anos 50, quando fazia dezenas de capas por mês para a gravadora Odeon e achava tempo e inspiração suficiente para criar imagens lindas e elegantes, como a do disco "Ooooh, Norma", de Norma Benguell, e vários de Silvinha Telles.
Em 1963 acompanhou o produtor Aloysio Oliveira quando esse saiu da Odeon e criou sua própria gravadora, a revolucionária Elenco, que lançou os discos de estréia de gente como Nara Leão, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Edu Lobo, Astrud Gilberto e álbuns de Baden Powell, Roberto Menescal e Maysa. Na Elenco, César abusou do minimalismo e ajudou a criar a imagem da própria bossa nova: elegante, discreta, moderna, ousada.
Em entrevista ao UOL, o capista --que hoje mora no Rio e trabalha com artes plásticas-- contou mais de sua história, suas criações e suas inspirações.
UOL - Como foi a criação da Elenco?
César Villela - O Aloysio de Oliveira saiu da Odeon e começou fazer shows no Au bom Gourmet, onde eu fazia os cenários. O primeiro foi "O Encontro", com João Gilberto, Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Os Cariocas. E ele e o Flávio Ramos --o dono do Au Bom Gourmet-- resolveram fazer uma gravadora para lançar aquele elenco. A maioria dos músicos da bossa nova não tinha gravadora, a Odeon só queria o João Gilberto. E todos queriam botar o nome na praça, então todo mundo adorou. Depois o Flavio Ramos acabou saindo da parceria e o Aloysio criou a Elenco sozinho. Mas a Elenco era sofisticada demais pra época, só vendia na Zona Sul do Rio de Janeiro --acho que depois de um tempo ganhou mais cartaz em São Paulo que no Rio. Eu e o Chico Pereira, meu parceiro, que fazia as fotos, não ganhávamos nada para fazer as capas, era tudo na base da amizade. Fazíamos por acreditar naquilo.

UOL - De onde veio a idéia para a simplicidade estética da Elenco e de tantas de suas capas?
Villela - Comecei a simplificar na Odeon, uma das principais capas dessa época é a do Noel Rosa --com uma rosa no lugar do "o". Eu via as vitrines confusas, todos fazíamos capas muito confusas. E não havia TV para fazer propaganda --as capas tinham de vender o disco! Aí lembrei que o Marshall McLuhan chamava isso de ruído visual e comecei a simplificar ao máximo. Os discos da Elenco brigavam nas lojas com os discos das multinacionais, eles tinham de sobressair. A simplificação das capas foi uma maneira de chamar a atenção para eles.

UOL - E o tão comentado alto-contraste, como surgiu?
Villela - O alto-contraste surgiu na Odeon. Eu conversava com o Chico Pereira e dizia pra ele que precisávamos simplificar as capas. Nessa época, ele era professor na ABAF (Associação Brasileira de Arte Fotográfica) e eu às vezes ia lá com ele. Quem estudava lá não eram fotógrafos profissionais, eram médicos, advogados. E certa vez vi uma exposição com diferentes experimentações na revelação e gostei de uma, que estava em alto-contraste. Perguntei pro Chico se ele conseguia fazer aquilo e ele me disse que sim. A primeira capa com essa idéia foi a do disco "O Amor, o Sorriso e a Flor", do João Gilberto, com efeito solarizado. Resolvi experimentar e todo mundo topou, ninguém falou nada. Aí, quando o Aloysio me chamou pra fazer as capas da Elenco eu disse, "vamos fazer tudo em alto contraste!"

UOL - Outro elemento famoso das capas da Elenco são os detalhes em vermelho.
Villela - Quando eu fazia capas desenhadas, eu colocava recortes vermelhos por cima. E as capas com fotos têm sempre quatro bolinhas, contando a do logotipo. Na época eu andava lendo umas coisas espirituais e li na Cabala dos judeus que o número quatro era ligado à harmonia. Achei que harmonia tinha a ver com música, daí resolvi usar aquela idéia nas bolinhas.

UOL - Depois de um tempo vocês desistiram do alto-contraste e logo depois pararam de fazer capas. Como foi a transição?
Villela - Fazer as capas em alto-contraste dava muito trabalho naquela época. Não era como hoje, que com um computador, em um segundo, você faz. Então, em certo ponto, o Chico não quis mais fazer. Além de dar trabalho, aquilo custava dinheiro, eram necessárias várias revelações. Aí experimentamos um pouco com outros estilos: fizemos duas capas com (a técnica) jato de areia, da Rosinha de Valença e do Roberto Menescal. Depois disso, paramos e fui morar nos Estados Unidos, em uma empresa de animação. Um tempo depois fiz mais algumas capas para o Aloysio, como a do disco "Contrastes", da Odete Lara, e do álbum do Edu Lobo com a Maria Bethânia.

UOL - E o Aloysio continou mais um pouco com a Elenco e depois a gravadora acabou, virou um selo da Philips.
Villela - Fui para os Estados Unidos em outubro de 1964 e lá só tocava "Garota de Ipanema" (risos). Mas aqui o mercado estava difícil, os militares estavam no poder, o Aloysio não estava ganhando dinheiro. Ele ainda segurou um tempo, mas depois vendeu a Elenco pra Philips. No fim, não ganhou nada, só gastou. Ele não tinha dinheiro, morava num apartamento de um quarto. A Elenco não vendia muito, mas na época os números eram diferentes: Anísio Silva era um grande vendedor de discos e vendia 10, 15 mil cópias.

UOL - O disco "Vinicius & Odette Lara" foi o primeiro lançado pela Elenco, mas não foi o primeiro que você fez, certo?
Villela - É, eu fazia as capas antes mesmo dos discos serem gravados. As capas eram feitas dois, três meses antes. A contracapa, com o repertório, era feita depois, porque era mais simples. O Aloysio (já na Odeon, depois também na Elenco) me passava uma lista com vários artistas. Alguns não tinham nem nome, alguns artistas não sabiam nem que iam gravar! Era preciso fazer com essa antecedência porque estávamos fazendo as capas em off-set, que era um tipo novo de impressão. Antes nós só tínhamos litografia e rotogravura, então nem todas as gráficas sabiam mexer com os fotolitos --e as que mexiam eram muito disputadas pelas agências de publicidade.

UOL - Como era o seu processso criativo das capas? Você tinha a idéia antes, passava pro Chico Pereira e depois montava tudo?
Villela - Eu dirigia as fotos, às vezes desenhava como imaginava que elas deveriam ser. No disco do Vinicius com a Odette, por exemplo, eles não puderam se encontrar pra foto. Então fizemos com os dois separadamente e depois eu montei: peguei a Odete com o pé no banquinho e pus o "&" ali. Para um disco da Sylvia Teles, o Aloysio tinha dado o título: "Bossa! Balanço! Balada!", me entregou datilografado. Aí tive a idéia de desenvolver as exclamações em parte gráfica. Pra fazer uma do Roberto Menescal, lembrei que ele era um grande pescador. E o Chico também, às vezes eles iam mergulhar juntos. Aí sugeri fotografar com aquela roupa. Chico me trouxe a foto e bolei a idéia de cada rapaz da banda estar representado por um peixinho. E muita coisa eu desenvolvi por pura intuição, como as setas na capa do primeiro disco da Nara Leão.
por: RONALDO EVANGELISTA
Colaboração para o UOL
César Villela é um dos mais influentes artistas gráficos brasileiros. Começou a invadir o inconsciente coletivo de todos os brasileiros interessados em música no fim dos anos 50, quando fazia dezenas de capas por mês para a gravadora Odeon e achava tempo e inspiração suficiente para criar imagens lindas e elegantes, como a do disco "Ooooh, Norma", de Norma Benguell, e vários de Silvinha Telles.
Em 1963 acompanhou o produtor Aloysio Oliveira quando esse saiu da Odeon e criou sua própria gravadora, a revolucionária Elenco, que lançou os discos de estréia de gente como Nara Leão, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Edu Lobo, Astrud Gilberto e álbuns de Baden Powell, Roberto Menescal e Maysa. Na Elenco, César abusou do minimalismo e ajudou a criar a imagem da própria bossa nova: elegante, discreta, moderna, ousada.
Em entrevista ao UOL, o capista --que hoje mora no Rio e trabalha com artes plásticas-- contou mais de sua história, suas criações e suas inspirações.
UOL - Como foi a criação da Elenco?
César Villela - O Aloysio de Oliveira saiu da Odeon e começou fazer shows no Au bom Gourmet, onde eu fazia os cenários. O primeiro foi "O Encontro", com João Gilberto, Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Os Cariocas. E ele e o Flávio Ramos --o dono do Au Bom Gourmet-- resolveram fazer uma gravadora para lançar aquele elenco. A maioria dos músicos da bossa nova não tinha gravadora, a Odeon só queria o João Gilberto. E todos queriam botar o nome na praça, então todo mundo adorou. Depois o Flavio Ramos acabou saindo da parceria e o Aloysio criou a Elenco sozinho. Mas a Elenco era sofisticada demais pra época, só vendia na Zona Sul do Rio de Janeiro --acho que depois de um tempo ganhou mais cartaz em São Paulo que no Rio. Eu e o Chico Pereira, meu parceiro, que fazia as fotos, não ganhávamos nada para fazer as capas, era tudo na base da amizade. Fazíamos por acreditar naquilo.

UOL - De onde veio a idéia para a simplicidade estética da Elenco e de tantas de suas capas?
Villela - Comecei a simplificar na Odeon, uma das principais capas dessa época é a do Noel Rosa --com uma rosa no lugar do "o". Eu via as vitrines confusas, todos fazíamos capas muito confusas. E não havia TV para fazer propaganda --as capas tinham de vender o disco! Aí lembrei que o Marshall McLuhan chamava isso de ruído visual e comecei a simplificar ao máximo. Os discos da Elenco brigavam nas lojas com os discos das multinacionais, eles tinham de sobressair. A simplificação das capas foi uma maneira de chamar a atenção para eles.

UOL - E o tão comentado alto-contraste, como surgiu?
Villela - O alto-contraste surgiu na Odeon. Eu conversava com o Chico Pereira e dizia pra ele que precisávamos simplificar as capas. Nessa época, ele era professor na ABAF (Associação Brasileira de Arte Fotográfica) e eu às vezes ia lá com ele. Quem estudava lá não eram fotógrafos profissionais, eram médicos, advogados. E certa vez vi uma exposição com diferentes experimentações na revelação e gostei de uma, que estava em alto-contraste. Perguntei pro Chico se ele conseguia fazer aquilo e ele me disse que sim. A primeira capa com essa idéia foi a do disco "O Amor, o Sorriso e a Flor", do João Gilberto, com efeito solarizado. Resolvi experimentar e todo mundo topou, ninguém falou nada. Aí, quando o Aloysio me chamou pra fazer as capas da Elenco eu disse, "vamos fazer tudo em alto contraste!"

UOL - Outro elemento famoso das capas da Elenco são os detalhes em vermelho.
Villela - Quando eu fazia capas desenhadas, eu colocava recortes vermelhos por cima. E as capas com fotos têm sempre quatro bolinhas, contando a do logotipo. Na época eu andava lendo umas coisas espirituais e li na Cabala dos judeus que o número quatro era ligado à harmonia. Achei que harmonia tinha a ver com música, daí resolvi usar aquela idéia nas bolinhas.

UOL - Depois de um tempo vocês desistiram do alto-contraste e logo depois pararam de fazer capas. Como foi a transição?
Villela - Fazer as capas em alto-contraste dava muito trabalho naquela época. Não era como hoje, que com um computador, em um segundo, você faz. Então, em certo ponto, o Chico não quis mais fazer. Além de dar trabalho, aquilo custava dinheiro, eram necessárias várias revelações. Aí experimentamos um pouco com outros estilos: fizemos duas capas com (a técnica) jato de areia, da Rosinha de Valença e do Roberto Menescal. Depois disso, paramos e fui morar nos Estados Unidos, em uma empresa de animação. Um tempo depois fiz mais algumas capas para o Aloysio, como a do disco "Contrastes", da Odete Lara, e do álbum do Edu Lobo com a Maria Bethânia.

UOL - E o Aloysio continou mais um pouco com a Elenco e depois a gravadora acabou, virou um selo da Philips.
Villela - Fui para os Estados Unidos em outubro de 1964 e lá só tocava "Garota de Ipanema" (risos). Mas aqui o mercado estava difícil, os militares estavam no poder, o Aloysio não estava ganhando dinheiro. Ele ainda segurou um tempo, mas depois vendeu a Elenco pra Philips. No fim, não ganhou nada, só gastou. Ele não tinha dinheiro, morava num apartamento de um quarto. A Elenco não vendia muito, mas na época os números eram diferentes: Anísio Silva era um grande vendedor de discos e vendia 10, 15 mil cópias.

UOL - O disco "Vinicius & Odette Lara" foi o primeiro lançado pela Elenco, mas não foi o primeiro que você fez, certo?
Villela - É, eu fazia as capas antes mesmo dos discos serem gravados. As capas eram feitas dois, três meses antes. A contracapa, com o repertório, era feita depois, porque era mais simples. O Aloysio (já na Odeon, depois também na Elenco) me passava uma lista com vários artistas. Alguns não tinham nem nome, alguns artistas não sabiam nem que iam gravar! Era preciso fazer com essa antecedência porque estávamos fazendo as capas em off-set, que era um tipo novo de impressão. Antes nós só tínhamos litografia e rotogravura, então nem todas as gráficas sabiam mexer com os fotolitos --e as que mexiam eram muito disputadas pelas agências de publicidade.

UOL - Como era o seu processso criativo das capas? Você tinha a idéia antes, passava pro Chico Pereira e depois montava tudo?
Villela - Eu dirigia as fotos, às vezes desenhava como imaginava que elas deveriam ser. No disco do Vinicius com a Odette, por exemplo, eles não puderam se encontrar pra foto. Então fizemos com os dois separadamente e depois eu montei: peguei a Odete com o pé no banquinho e pus o "&" ali. Para um disco da Sylvia Teles, o Aloysio tinha dado o título: "Bossa! Balanço! Balada!", me entregou datilografado. Aí tive a idéia de desenvolver as exclamações em parte gráfica. Pra fazer uma do Roberto Menescal, lembrei que ele era um grande pescador. E o Chico também, às vezes eles iam mergulhar juntos. Aí sugeri fotografar com aquela roupa. Chico me trouxe a foto e bolei a idéia de cada rapaz da banda estar representado por um peixinho. E muita coisa eu desenvolvi por pura intuição, como as setas na capa do primeiro disco da Nara Leão.
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008
virgem
Primeiro post do primeiro blog:
A inocência de quem acredita que pode falar o que pensa, com a experiência de quem paga pelo que fala.
Não sou um smurf, mas sou azul.
Espaço para impressões sobre pessoas que não tem as cores do resto do mundo. Mundo que segue com tanta gente que nem sabe que tem uma cor
A inocência de quem acredita que pode falar o que pensa, com a experiência de quem paga pelo que fala.
Não sou um smurf, mas sou azul.
Espaço para impressões sobre pessoas que não tem as cores do resto do mundo. Mundo que segue com tanta gente que nem sabe que tem uma cor
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